sábado, 15 de setembro de 2018

Infinita Highway


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On the Road, de Walter Salles

A espanhola Rosa Montero, num de seus livros, “La Loca de la Casa”, conta que organiza suas lembranças a partir dos namorados que teve e dos livros que escreveu. Fiquei pensando em como eu ordenava as minhas. Seria por idade? Já que faço aniversário no Natal, todo ano novo é também uma idade nova. Não. Por ritos de passagem e fatos marcantes? Quando entrei na faculdade, quando tive o primeiro emprego, quando fui morar sozinha, quando me casei, engravidei... também não. Pelas casas em que morei, pelos forrós que dancei, pelas viagens que fiz, pelos bichinhos de estimação que tive... Me dei conta de que organizo minhas memórias pelas cidades onde morei.
Nascida em BH. Tem uma foto na portaria do prédio no dia em que minhas irmãs (gêmeas) vieram ao mundo. Tão risonha, nem parecia que acabara de perder o posto de filha única. E ainda por cima, em dose dupla.
Pequena em Marabá (onde meu pai foi Pará). Minha mãe conta que morávamos bem próximos da casa da luz vermelha e eu pedi uma luz igual pra nossa casa - logo se vê, já era rebelde. - Mas a única lembrança que tenho desse tempo é de uma aranha caranguejeira na parede branca num dia bem quente de carnaval.
Infância no Iraque. Por 5 anos pra lá de Bagdá, mais uma vez, por causa de uma obra do trabalho do meu pai, engenheiro ferroviário. Highway foi a primeira palavra em inglês que aprendi a ler. Lembranças muito felizes de um povo generoso, os árabes. Embora meu pai dissesse que legais mesmo eram os indianos. Até hoje minha mãe não deixa a gente passar o saleiro na mesa entregando em mãos. Lá na Express Way, um dos acampamentos brasileiros da Mendes Jr onde moramos, num almoço, quando minha mãe passou o sal para a indiana, ela deu a entender por gestos afoitos, na língua dela, não, não, que tinha que botar na mesa e então ela pegaria, obrigada! Passar o sal de mão em mão traz má sorte.
Depois veio a Disney, como despedida do Iraque e vinda definitiva para o Brasil. Voltei com o Pateta de pelúcia e um boné do Pato Donald. Minha irmã Amanda, com Minnie e Mickey, Fernanda, com Donald e Margarida. Bem democrático, cada uma cada uma, sem repetir preferências.
Atrás do carro não tinha briga para quem ia na janela. As gêmeas, uma de cada lado do carro, eu gostava de ir no meio, um cotovelo apoiado em cada banco, cantando de cor a letra inteira de “Infinita Highway”. Já não estávamos mais na paisagem marrom do Iraque, de tamareiras e deserto, mas nas montanhas de Minas Gerais, mais precisamente no bairro Santo Antônio, repleto de ladeiras, em Belo Horizonte, depois em Lourdes onde meus pais moram até hoje, quero dizer, minha mãe e a irmã caçula. Porque meu pai, ah! esse está até hoje cortando chão.
E foram longos anos, minha mãe comprando móveis provisórios, na iminência de que poderíamos nos mudar de novo, mas foi só meu pai: São Paulo, Vitória, ia e vinha. E aí foi colégio, várias viagens durante a faculdade, menina caminhando a trancos, barrancos e dramas pra virar mulher.
Fui pra Espanha. Me formei e fui pra Málaga, solita, Andaluzia, berço de Picasso. Era meu sonho vivenciar outra cultura, aprender espanhol dentro de uma família espanhola. E que sorte eu tive! Fui acolhida por pessoas muito especiais. Todo mundo morando na mesma finca (condomínio). Eu, Ángela e Luli, a pequena ninã de 2 anos que eu cuidava, na casa de baixo Carlete e Adol, irmãos de Ángela, e duas sobrinhas, Bebi e Paula, filhas de Carlete, e na última casa, os avós de Luli, Mariángeles e Carlos, e seu tio mais novo, Pablo. Longe de todos os conhecidos, amadureci, perdi muito da timidez, fiquei desenvolta e  comecei a comer salada.
Voltei pro Brasil, caí no forró e perdi, no chorar da sanfona, os quilinhos ganhos na Espanha. Virei forrozeira de bater ponto no forró da quinta, e ali construí minha alto autoestima. Fui morar sozinha e tornei-me um pouco adulta enfim.
Fui pra Caraíva uns dois anos depois, paraíso baiano com menos de mil habitantes, uma quase ilha onde carros não entram e àquela época com luz recém-chegada, porque até então, luz de noite era só com gerador. Verão no Lagoa, fui cair no lugar mais interessante do lugar. A estada hedonista de um ano esticou pra quase dois. Ali aprendi a desapegar e conviver com sapos, insetos e gente muito humilde, pescadores.
De lá vim pra capital carioca. Fui chamada pra um cargo de confiança. Vim pra entrevista, tive que pegar um sapato e uma calça emprestados de uma amiga, só tinha chinelo. Cheguei com medo de atravessar rua, lá na Bahia só tinha carroça. Entrava no supermercado e achava que estava num shopping. O cheiro da maresia, perfume predileto para uma mineira que já estava com saudades da vida cosmopolita.
Em Medellín, na Colômbia, engravidei! No Rio, me casei - não necessariamente nesta ordem. No Rio me finquei, mas por enquanto!
Acabou rendendo o assunto, esse de ordenar as memórias. É como a autora escreveu: "Podríamos deducir que los humanos somos, por encima de todo, novelistas." 

(texto escrito fruto do Clube do Autor do Terapia da Palavra)

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