terça-feira, 22 de novembro de 2016

Quem sou eu, enchantée!

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Maja Desnuda e Maja Vestida, de Goya.
Prefácio

Salamalico é oi em árabe. Já que eu sou troligota, trogodlota, troglodita poliglota. Assim alguém me chamou uma vez, quem me dera! Talvez se eu ganhasse um bônus, sairia aprendendo todos os idiomas em seus respectivos países, tudo que é língua, todas as línguas, línguas de gata. Seria minha viagem dos sonhos. Enquanto isso devo me contentar com ir refinando gírias na cubana  ‘Generación Y’ e escutando os idiomas ríspidos e ao mesmo tempo tão familiares na delicadeza de Abas Kiarostami. Ser una trotamundos otra vez, um desejo! Pode ser pura aflição: o melhor lugar é onde a gente não está, me disse uma amiga uma vez e soou tão histérico. Não quero parecer histérica. Foi uma fase, os tempos são outros pra mim, era apenas uma vontade inquieta às vezes extraordinária, às vezes dolorida. Enquanto encho a cabeça de devaneios me resta imitar as boquinhas em Jackes Tati, tentando aprender a pronunciar de uma vez por todas o “u” em francês. Essa coceirinha de sair por aí trotando mundos, esse ferrinho de dentista que frequentemente me acometia, agora não mais, não neste momento, é o que os existencialistas chamam da falta – imprescindível – que nos move. Entre uma pausa e outra, quando esse frenesi descansa, o jeito é ir percebendo a curiosa entonação dos chineses nos filmes de Wong Kar Wai. “Quem tem alma não tem calma”, já dizia Fernando Pessoa. 
One, two, three, four! Hey ho, let´s go!
Quando criança queria ser trapezista ou astronauta, mas se meus pais tivessem me observado bem e me dado um palpite pro vestibular, veriam que minha vocação era pra professora, tradutora, intérprete ou jornalista. Tava na cara, mas eu crua àquela época não percebi. 
O tomo 1 da trilogia “1Q84” é meu livro preferido. “A Elegância do Ouriço” me fez chorar, “Palmeras en la Nieve”, que ainda não tem em português, foi o livro que mais rápido li e “Corazón tan Blanco” me fez mudar de ponto de vista. Às vezes não damos conta de ouvir a verdade do outro. "Nueve Lunas" na gravidez, “Crime e Castigo”… são tantos! Nunca li o mesmo livro duas vezes, mas já senti vontade de reler alguns da escola, como “O Apanhador no Campo do Centeio” e “Metamorfose”. Mas como sempre, compro mais livros do que sou capaz de ler e não satisfeita, ainda tenho colada na geladeira uma wishlist . Sabe mulher que fica louca numa loja de sapatos? Eu enlouqueço numa livraria ou no sacolão (hortifruti em carioquês). Também não sou de repetir filme, conto nos dedos. Fui 2x ver  “Relatos Selvagens”, a primeira sozinha e depois com meu marido, porque queria que ele me amasse pra sempre por não ter perdido essa pérola do cinema argentino contemporâneo, ah, eu vibrei! E “O Paciente Inglês” 3x, porque eu devia ser à toa naquele tempo e porque o personagem do Ralph Fiennes, mesmo aparentando ter o dobro da minha idade, me pareceu um homem extremamente atraente. Hoje não é mais aquilo tudo. O tempo é cruel. Ah, e também porque não havia muitos cinemas em Belo Horizonte, era isso ou Blockbuster. Na TV, “Pontes de Madson” algum par de vezes, porque a gente vive com a Meryl a paixão forte que ela topou encarar nos quatro dias mais emocionantes da vida sem graça dela. A protagonista pra enxergar o marido precisou ter um amante, um amante que durou quatro dias. Além disso, a meu ver, “Pontes de Madson” tem uma das cenas mais sensuais, delicadas e cheia de significado, que é quando ela está imersa na banheira da casa dela, a mesma onde ele acabou de tomar banho. E ela se dá conta disso à flor da pele sentindo intensamente. Profundo, tocante e bonito de morrer! Me atraem também roteiros recheados das mazelas da vida e filmes com personagens solitários, como “Medianeras".
Gosto do meu nome, nunca desgostei dele mesmo sendo o da moda na minha geração. Minha mãe diz que era pra eu me chamar Cristiane ou Natália porque nasci no Natal, mas como ela sempre pede opinião pra todo mundo, mas faz o que quer, me batizou Carolina. Carol pra maioria, Cacá pro meu pai, Cake pra uns primos, Coralina pra umas amigas, Cá pros paulistanos, Caro em español e Carolinda no meu curso de escrita criativa. 
Se eu tivesse uma filha, se chamaria Violeta. E se eu tivesse outra gata, seria Fermina, como a personagem de “O Amor nos Tempos do Cólera” ou Gala, como a mulher-musa de Salvador Dalí. Falando nos felinos, sempre sonhei ter gatos e adotei um casal na primeira oportunidade que tive. Logo fomos adotados pelo meu querido marido que nos acolheu com muito carinho. O nome dos bichanos? Bahia e Dolores. Adoro a língua espanhola, adoro Almodóvar e suas cores, na outra encarnação fui las majas de Goya. Adoraria voltar no tempo para vê-lo pintando-as, pintando-me, la vestida y la desnuda.
Mas o que eu queria mesmo era que aparecesse na minha frente uma lâmpada de Alladin pra poder fazer realizar assim fácil três desejos, porém se fosse Deus quem aparecesse eu perguntaria: Quem é você e o que você faz?
Uma das coisas que ao mesmo tempo me entedia e acalma é rotina, mesmo assim o mundo poderia viver em Primavera. Por isso tive vontade de morar em Medellín quando passeei por lá, a metrópole paisa tem um clima tão gostoso que é conhecida como a cidade da eterna primavera. Se o paraíso existe ele é ensolarado e tem o clima de Medellín.
A última vez que chorei foi de alegria ao dar à luz e a penúltima poderia ter sido de tristeza se eu não tivesse segurado o choro. Senti uma frustração doída no caminho pra cesárea, quando eu queria e acreditava piamente que teria parto normal. Se eu voltasse no tempo, reviveria o momento do parto, mesmo sendo cesariano, não importa, a boca do gol, porque quase perdi a emoção de ver pela primeira vez a carinha do meu bebê tamanho pavor que me afligia. Graças ao meu marido, deu tempo, porque minutos antes do Felipe nascer, comentei que estava com muito medo, e ele, exalando adrenalina, me trouxe pra vida boa de viver dizendo: ‘Calma, daqui a pouco você vai ouvir o chorinho do nosso filho’. Sendo assim não chorei de emoção, eu transbordei, porque não cabe, é imenso, e ainda por cima, depois só melhora, é puro encantamento.
Epílogo
Sou uma farsa, uma pipa voada, uma florzinha. Já fui santa do pau do oco, hoje em dia quem não me conhece, que me compre. Sou do bem e de bem com a vida, sou de fácil convivência, porque a vida me brinda com frequência com episódios de felicidade, e quando infeliz procuro não deixar transparecer e assim sendo não infernizar o convívio com ninguém, afinal, estímulo-resposta.
Nem sou tão fã de Gilberto Gil, dessa linhagem prefiro o Caetano ou as composições do Chico, mas acho que a trilha sonora pra tudo isso que acabei de contar através de meus dedinhos impetuosos, seria a canção de sua autoria, “Super-Homem”. Porque sim. Enchantée!

https://www.youtube.com/watch?v=oG-drSJ52x0


Este texto é fruto do curso de escrita criativa Terapia da Palavra
http://www.terapiadapalavra.com.br/