sábado, 4 de julho de 2015

♥ Minhas avós ♥



(com a contribuição da Amanda)

Minhas avós foram duas, a materna e a paterna. Parece óbvio, mas é que não tive avôs. E o que tive foi avô-padrasto, no melhor sentido que esta palavra possa carregar! Minhas avós foram duas mulheres admiráveis e extraordinárias: a Marietta, com dois tês, e a Consuelo, que traduzindo do espanhol, embora a origem dela fosse portuguesa, significa ‘consolo’.
 
Não me lembro de ser consolada pela minha avó Consuelo. Ela estava sempre chamando minha atenção: "Minha filha, senta direito!", "Carolina, não dá para estudar ouvindo música!". Só que ela fazia o melhor bife do mundo e hoje eu gostaria de recuperar todos seus vestidos e seus sapatos, que na época, não me dava conta, como eram lindos em toda sua simplicidade. Eu também não me dei conta da mulher forte que era enquanto ela ainda estava viva e eu era uma adolescente boba e burra. Vovó Consuelo contava sempre as mesmas piadas que eu não aguentava mais ouvir e nos pegava de papo sem fim no intervalo de um filme na TV. Aprendi com ela que “s” só se usa em quem tem cara e dente na frente, pros outros substantivos, era “z”. Que beleza! Minha avó paterna nunca teve vida de princesa. Talvez na infância em Leopoldina entre tantos irmãos queridos. Pois se casou com um homem que não a merecia, mas que lhe proporcionou quatro amados varões: José Nelson, Luiz Fernando, Cláudio e Pedro Ângelo. Só meu pai não ganhou nome composto e já me esqueci por quê. Desde pequena eu achava que não tinha avô, mas ele só foi morrer quando eu já estava crescida. Não o conheci e não tive vontade de fazê-lo quando soube. Minha avó era tão completa que bastava ela. Nascida em 1913 ousou divorciar-se numa época onde isso era inadmissível. E criou com louvor os filhos lecionando português. Em Governador Valadares se formou professora e lá trabalhou na mesma escola Ibituruna até aposentar-se. Foi uma das professoras mais queridas e brincalhonas, fato que percebi quando ela cruzava com ex-alunos na rua, os quais não paravam de elogiá-la. Ela também inventou de consertar bicicletas na garagem de sua casa para incrementar a renda. Bravo! Tinha mania de rezar o credo em nossas costas e fazer novenas. Sua casa era a mais quente e nos natais passávamos as madrugadas acordados, matando pernilongos com os travesseiros. Mas adorávamos aquela casa, os copos brilhando na cristaleira, as romãnzeiras no jardim e a massa de rosca crescendo ao sol. Foi no quarto dela onde me vi no espelho da cabeceira, com meu primeiro sutiã e de absorvente, admirada pela mulher que eu achei que já era. Imagina, eu acabava de fazer 13 anos! No teto do quarto dela também tinha uma casa de marimbondos, e mesmo tão fresquinha, eu não tinha nenhum medo daquela presença selvagem. Era mais um apetrecho fazendo parte daquele universo tão cheio de graça.

D. Consuelo tinha saúde de ferro e foi lúcida e ágil até o fim. Gabava-se por nunca ter tido dor de cabeça ou precisar usar óculos no alto de suas 87 primaveras, fato comprovado quando fazia, assertivamente, palavras cruzadas. Baixinha, tinha os cabelos brancos mais brilhantes que se pode imaginar e pálidos, mas vivos, olhos azuis.

Minhas avós bancaram um “eu quero” numa era onde era mais cabível um “não devo”. Foram genuínas e guerreiras. Espero reconhecer em mim algo da pureza delas. Pois como eu disse, uma adolescente boba e burra era o que eu era. Que bom que o tempo passa. Mas não volta, pois se assim fosse, passaria mais tempo com ela ouvindo a riqueza que ela própria desconhecia ter, de sua trajetória e conquistas. Como o caso daquele célebre e engenhoso fazendeiro, conterrâneo seu, que teve a brilhante ideia de enxertar uma manga num mamão. Sabe no quê deu? Numa banana pra você que acreditou! :)

Vovó Consuelo tinha gostinho de quero mais!

 (Sobre minha outra avó, a Marietta, já escrevi aqui: 


Uma musiquinha pra ela:  
https://www.youtube.com/watch?v=k-ErnX6LCNI