quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A Concubina



co-participação de Mario Teixeira

Ele é musicista. Toca choro, samba, tango, cha-cha-chá... qualquer ritmo que você quiser que não seja num pandeiro! Ele mora não sei com quem, mas vive muito bem, eu soube, em seu segundo lar, uma orquestra. Ele é um talento e não tirou os olhos de você. Seu jeito misterioso, atento e dividido entre o par de pratos e a sua figura enquanto acompanhava “I Did It My Way”, te b-a-l-a-n-ç-o-u. E não foi por causa daquele blesq bom... ô balance balancê!

Você vai querer ter um caso com ele. E ele vai te mandar músicas diariamente, tocar na sala pela madrugada tudo que você queria. Você vai achar algo muito delicado e vai se apaixonar pela sua autenticidade. Mas vida, você já é comprometida e isso é uma novidade, esqueceu?

Não, você nunca soube dizer não.

Então você vai se jogar, porque é louca e está louca de curiosidade para ouvir o que ele tem para te dizer. E como ordenam os clássicos e discordam os sambas, vocês vão combinar. E você resolverá mudar de vida. É, nessa valsa você vai trocar de par. Depois, tudo a mesma coisa, mas numa outra companhia, um frescor no ar. Os amigos serão outros, e disso você gosta, de conhecer pessoas novas. Talvez mude um pouco o cardápio, algo diferente no jantar ou as cores das paredes e os programas de TV. Talvez até vocês tenham mais afinidades. Você vai ampliar seu background porque vai aprender as coisas novas que ele, tão erudito, te traz.

Tudo é finitude.

E logo alguém virá puxar sua orelha, perguntar: 'por que tão rápido?', te chamar de sanguinária. Vão dizer que você tenta preencher o vazio impetuosamente. Você vai se sentir culpada, se flagelar porque isso as pessoas que te querem não merecem, mas não vai mudar, porque a vida inteira tudo te chegou assim facilmente e sem se dar conta, seus caprichos te arrastam de um jeito assim, avassalador.

Ou você, não menos desmiolada, pode renunciar e sentir-se bem caretinha! Você vai escrever uma carta e recusar seu convite usando palavras bonitas. Dirá que adoraria passar o final de semana em sua companhia, e também a semana seguinte, “mas esta seria a parte que eu não sei se devia”. Você vai achar todos os motivos que te fariam ir e sentimentos que te fariam ficar, para depois saber que pôde e não soube aproveitar. Pode ser que ele não compreenda, e nem precisa, mas você vai honrar seus compromissos. Estes que você escolheu ter. E passará o dia cantarolando, “qué bonito sería tu mar si supiera yo nadar.”

E assim, hesitante, andando distraída pela rua, uma cigana te lerá a mão, e sábia, vai te descrever muito bem. Ela vai te comparar à figura da Concubina. Você não vai gostar, vai se ofender, mas depois se conformar porque sabe muito bem como se encaixa neste papel. Ela vai te desvendar, e você vai se tocar que seu jeito de agir é mesmo desapropriado. 

E não é que era exatamente o que você precisava se dar conta, afinal? Para então ir lá provar: doce, doce, doce.

 *foto do filme “L'Apollonide – Os amores da casa de tolerância”.