sábado, 19 de julho de 2014

20 e poucos anos

 

Clara era a única que não estava de passagem. Queria imergir naquela língua, tinha ido pra ficar. Despediram-se um a um. De casa, da rua, do aeroporto, viu todos arrastarem suas malas estufadas. Mas só um deles, Elisa, tão charmosa já àquela idade, levava na bagagem um envelope sorrateiro seu. Palavras duras que só leria em seu país, e que mais tarde responderia numa única frase: “Sua carta me feriu.”, recebida com deleite pela remetente, meses depois.
Vem o flashback.
As ondas viam tentando soltar as mãos das duas que gargalhavam. Na manhã seguinte sentiriam o estrago das pedras nos pés, que naquela noite cálida, um pouco bêbadas, não se davam conta. Uma de topless, a outra de calcinha e sutiã na terra do Picasso, ¡olé! Recém-formadas, estrangeiras estudando espanhol no verão andaluz. Elisa, uma italiana que exalava sensualidade e Clara, made in Brazil, que mesmo na Europa, não tinha coragem de exibir os peitos. Na areia, as esperavam pra um ‘verdade ou consequência’, dois alemães de olhos azuis, três italianos amigos de infância, uma japonesa loira tatuada, uma húngara e uma eslovena. Uma amizade que parecia tudo, menos efêmera, mas que durou apenas aquele próspero mês de agosto.
Quando Clara a viu pela primeira vez na escola, teve um pensamento adolescente: “Quero ser amiga dessa menina”. A recíproca, ainda que meio adversa, veio no joguinho infeliz esse, que a garrafa aponta em duas direções, um pergunta, o outro responde, com a única regra de que é proibido mentir. Roberto, o romano, então indaga à conterrânea de quem ali ela gostava mais. Elisa hesita numa pausa que faz todos os homens ansiarem por seu nome na boca dela, enquanto o coração da brasileira, feito montanha-russa, prevê a resposta que vem certeira: Clara.
Embaraço, mudez geral, fim de linha.
Davide, o napolitano que era a cara do Bono Vox, acompanha Clara até em casa e eles se beijam na calçada. A confissão de Elisa apressa a materialização do desejo dos dois. Esta noite, Clara não dorme, extasiada com a revelação da amiga e com o chega pra cá do pretendente. Tantas emoções.
Os dias correm, Clara ainda gosta de Davide, mas fica atraída por Elisa que passa a enxergar Davide com outros olhos, que também cobiça Elisa mesmo querendo continuar com Clara. Roberto discute em italiano com Davide e Clara percebe que estão falando de Elisa. Há uma tramoia no ar. O grupo dos 10 vai à praia da Malagueta, come boquerones em Pedregalejo, sai de tapas pela Calle Granada, baila, embebeda-se de tinto de verano, segue divertindo-se a valer. Davide com Clara. Clara e Elisa continuam amigas, mas nem tanto, desde a garrafa.
Voltando de um karaokê, despedida dos italianos, Elisa diz a Clara que Davide escolheu ficar com ela porque ela era brasileira e seria muito mais exótico compartilhar isso com os amigos, do que voltar pra Nápoles dizendo que conheceu uma italiana na Espanha. Fala assim com Clara como se listasse seus filmes favoritos. A outra, atônita, ouve calada e mais tarde, por dormirem na mesma casa, consegue plantar a carta que grita:
Não, Elisa, ele não escolheu ficar comigo porque teria mais graça entre os amigos narrar o verão com uma brasileira. Engana-se. Ele preferiu ficar comigo porque eu sou mais envolvente, mais bonita, mais doce, mais natural, mais legal, mais vistosa, mais engraçada! E mais um monte de mais que não achou graça em você, independentemente de nossas origens. Sinto muito! Espero que possam continuar a amizade aí na Itália, nós já temos encontro marcado, daqui um ano, em Paris, quando eu estarei voltando para o Brasil. Uma pena a sua arrogância, presunção e falta de discernimento, seu ego inflado. Tudo poderia ter sido diferente. Saludos desde Málaga, Clara.
Coração escoado pelos dedos é bem melhor que preso na garganta ou pesando no peito. Bem feito!
* Este texto é fruto da oficina de escrita criativa, Terapia da Palavra.
Outro texto de essa época malagueña aqui!
(Foto do filme Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen)