sábado, 26 de setembro de 2015

Bicho de Sete Cabeças



 “Escribir lo que debería me da miedo, y escribir otra cosa me da vergüenza.”

Betibú, Claudia Piñeiro



O recinto de paredes verde-claras cheira a guardado. Nos quartos só tem camas, nenhum lugar para guardar os objetos pessoais, uma mesmice. Todo mundo igual, trajando peças largas de um tecido grosso e verde, dessa vez, escuro. As mulheres pedem cigarros às visitas através das grades. Mas isso não é uma prisão, e isso eu te digo barulhenta e debochada.

– Faz muito tempo que você tá aqui?
– Acabou de chegar, boneca?
– É, eu vim de ambulância. Não tô entendendo direito.
– Quem é seu médico?
– Médico?
– É, bonita, todos aqui têm um médico. Isso é um hospital.
– Ah!
– Psiquiátrico.
– Hum, ele deve estar numa sala de cirurgia agora.
– Sala de eletrochoque você quer dizer.
– Não, numa mesa cirúrgica mesmo. Eu afundei um abre-cartas na mão dele.
– Pasma!
–Não queria vir, estava muito nervosa, me obrigaram, arrastaram-me pelos cabelos. Também arrebentei a pulseira do relógio dele. Coitado!
– E quem te trouxe?
– Ah, conta de você. Por que tá aqui, sua louca?
– Prefiro que me chame de maluca.
– Aí, amiga!
– É um engano eu estar aqui, mas tô gostando. Já tive a chance de surtar, mas sabe como é, perdi a chance. Você também não parece louca. Por que te trouxeram pelos cabelos?
– Porque eu tava certa e o mundo inteiro, errado. Eu devia de estar destoando.
– Nem psicótica nem depressiva, então?
– Um quê de bipolar e um quá de histérica.
– Que mulher não?
– É a mais viva prova de nossa sanidade: não somos loucas.
– Assim sendo, pare de drama! Se você não sofre de nenhuma psicopatologia grave, por que chegou à força aqui?
– Digo não dessas de ter que ingerir psicotrópicos. O máximo que posso precisar, aqui entre nós, hein, é de um chega-pra-lá pra deixar de pirraça.
– Você sofre é de seriedade, amada.
– Séria, eu? Tá de sacanagem.
– É, você é muito séria.
– Você nem me conhece pra saber.
– Tô te achando muito chata.
– Não ouvi.
– Ih, cansei, pirada!
– Ué, cadê ela?

Olha pra um lado e pro outro e não vê a colega. Dá de cara com um espelho e toma um susto ao ver o reflexo de seu desmazelo. Conforma-se, apaga o cigarro com a sola do calçado preto, parte do uniforme, e vira o rosto para tomar aquele solzinho gostoso.


(Foto: Rossy de Palma, em "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos", de Almodóvar)


Nenhum comentário:

Postar um comentário