sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Princesa


Soledad estava sempre sozinha. Era famosa na locadora, lhe tratavam pelo nome. Ali batia ponto nos finais de semana, saía com 3 filmes debaixo do braço, 2/3 deles europeus em preto e branco. Na praia era sempre só ela, seu jornal, sua cadeira e o guarda-sol. Nenhum surfista vinha pedir ajuda para subir o zíper daquele macacão de surf. ‘Bem que podia!’ – sonhava. Os que vinham pedir para olhar as havaianas enquanto davam um mergulho eram todos senhores bem enrugadinhos. Desgostosa da vida, ia da praia direto a comprar um frango assado. Só levava o celular frenético consigo para ver as horas. Quase sempre não estava para ninguém! O homem que fatiava o frango já sabia que só precisava cortá-lo ao meio e não em partes. Soledad não tinha paciência para esperar. Era magra, mas estava sempre faminta. Uma amiga sugeriu que adotasse um cãozinho: ‘Vai te fazer companhia’. Que nada!, Soledad era feliz assim, se bastava fumando seu cigarro. Independente, sentia-se em paz. Toda semana o mesmo enredo: ela e um saco de pipoca doce numa poltrona de cinema, ela sozinha no metrô, ela sozinha no shopping, sozinha no self-service, livre e plena. Soledad não é feia nem burra, não é medrosa nem pessimista, hipocondríaca ou desleixada. Pelo contrário, sua autoestima é do tamanho de seu espelho. Você pode achá-la antipática, arrogante, egoísta. Esquizofrênica talvez? Engana-se: a Soledad é uma conchinha, interveio sua psicanalista uma vez: ‘Você não se aproxima das pessoas porque não quer que elas te conheçam.’ Tiro certeiro na sua alma, nunca mais voltou à terapia. Não queria mudar. Era que nem burro quando empaca.
Soledad curtia sua solidão, seus filmes prediletos eram recheados de personagens solitários, mas às vezes batia uma vontade de ter um namorado! Nestes dias, fogosa da vida, ligava para as amigas e ia para El Born prestando atenção em todos os rostos. No trabalho não tinha ninguém que prestasse e seu espanhol carecia de brilho para cantar alguém virtualmente num desses chats. O jeito era se jogar no ringue e sair sorrindo a torto e a direito para os mocinhos que lhe chamavam a atenção. Era só querer que voltava acompanhada para a casa.
Hoje ela faz um mês de namoro e Javier vai buscá-la para um happy hour de celebração. É inédito alguém ir pegá-la no trabalho. Soledad passa o dia eufórica, ansiosa pela concretização de um sonho tão antigo. Lembra-se com asco e dor do tempo que era menina de programa para pagar a faculdade, quando fantasiava o dia em que um homem de bem a buscasse na porta do serviço. Fato improvável naquela época, já que na rua não tem porta e muito menos interfone. É chegada sua vez.
inspirado na música 'Me Llaman Calle', de Mano Chao,
 trilha sonora do filme 'Princesas', de Fernando León de Aranoa:

10 comentários:

  1. Apaixonei com o mistério de Letícia.
    E será que um dia ela contará para o Javier?
    Muito bom isso que fica no ar!
    Bjo,
    Fidel

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  2. Adorei! Muito legal esta historia de misterio e romance da Leticia... BJOCAS!

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  3. CAROL, adorei! Mto bom mesmo! Como sempre, suas crônicas nos deixam com os olhos arregalados na tela até terminar!

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  4. Gostei deste conto da menina só.

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  5. Fim surpreendente, escondido na simplicidade do cotidiano narrado. Muito interessante isso. Adorei o texto! Beijocas, Bel.

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  6. lindo conto, minha flor!e quantas identificações produzidas na palavra conchinha... me vi em letícia....
    beijocas gordas

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  7. surpreendente! adorei a Letícia!
    isso devia continuar...

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  8. Alterei o nome da Letícia para Soledad.

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  9. Editei o texto após curso de escrita criativa que fiz em maio/14. Aqui o site deles: http://terapiadapalavra.com/

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  10. Carolina, dá para ver sua Soledad! Ela me lembrou Almadóvar, Banderas e cia.
    Bjs

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