quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Mi casa, su casa.



En el trayecto hacia el aeropuerto, no pudimos hablar, nosotras tan solo llorábamos. Ángela solía decir que yo era la hermana que no tuvo -  a los que no saben, tiene 3 hermanos varones: Carlete, Adol y Pablo. Y sí, fuimos como hermanas durante los 9 meses que vivimos juntas: yo, ella, Lourdes y la Mujer de Blanco, ¿te acuerdas, Luli?, en su preciosa casa en los Montes de Málaga. Yo había ido a España a estudiar español y cuidaba a Lourdes, su hija, entonces con 2 y luego 3 añitos, una niña muy presumida a quien le encantaba ponerse tacones y un vestido de gitana con muchos volantes,¡supermona!

Los que me conocen bien, seguro que ya oyeron hablar de Ángela, no por la foto que tengo suya con Luli en mi casa, (arriba) pero por haber sido la protagonista de mi maravillosa experiencia en España.
Ángela me prestaba sus ropas, su coche y su plancha para el pelo. Le regalé un compact de Jarabe de Palo (ver video abajo) cuando me fui y ella compró regalos a todos de mi familia. Habían más regalos en mi maleta que ropas. Y cuando ya estaba en Brasil, me mandó por los correos, uno de los mejores ingenios españoles:¡una fregona!Desde el salón, mientras veía con Luli, Blancanieves, su peli favorita, me gustaba adivinar con qué medias iba a bajar las escaleras, un abanico de variedades que ella desfilaba cada noche que iba de marcha. Siempre que salía de juerga lo hacía ¡a lo grande!

Con ella aprendí a cocinar albóndigas, echar vino tinto en las salsas, hacer gazpacho y me convertí en una adicta a la nutela. Me encantaba cuando le antojaba desayunar churros con chocolate y bajaba temprano en su coche a por ellos. Era tan rica la mermelada de fresa que su padre, Carlos, hacía, y también los boquerones al escabeche. Y qué gustito era cuando su madre, Mariángeles, la estupenda abueli de Luli, nos llamaba para decir: “¡Bajad, guapas. He hecho paella!” ¡Qué bien lo pasábamos! Me acuerdo de Ángela contando los billetes para pagar al hombre del camión de agua y del verano cuando por fin llenamos la piscina.
Lourdes, en el comienzo, no podía pronunciar mi nombre, muy largo para una niña tan chica, así que me decía Colina. La gente pensaba, qué mono, pero yo insistía para que me llamara C-a-r-o-l-i-n-a, con todas las letras. Luego aprendió a llamarme Coralina y un par de días antes de que me fuera, me dijo: ¡Carolina! Me puse la piel de gallina y aquel día me hizo mucha ilusión que me volviera a decir ‘Colina’.

En mi fiesta de despedida en "nuestra" casa, hizo pinchitos y llenamos la pisci de globos. Me dejó que invitara a todos mis amigos ‘guiris’, que se juntaron a los suyos, en una gran fiesta andaluza con mucha caipirinha, ya que alguien consiguió “maracujá” y una botella de 51 en el Corte Inglés. Ángela sugerió que me tiraran a la piscina con los zapatos encima y al final, terminamos todos chorreando.
Fueron días muy felices, Ángela me hacía sentir muy a gusto allí y es por eso que de ella me llevo los mejores y más dulces recuerdos de Málaga.

Aunque mi sueño de ahorrar dinero para un viaje a España y imaginarme llegando a su casa, se murió ayer... ¿sabes qué?, estoy muy contenta por haberte conocido. Les doy las gracias sobre todo a Camilo y Hernán que me pusieron en sua vida, y viceversa.

Para Ángela, muita saudade y una canción:
http://www.youtube.com/watch?v=xxhET61yB1A&ob=av2e


foto: Yo en su casa en los montes con Atila, el perrito de Lourdes. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Se








se naquele samba você dissesse
que eu tinha corpo de bailarina.
se na fila do mercado eu tivesse te notado,
e sendo a sua fila mais rápida do que a minha,
você estivesse lá fora e dissesse: ‘tava’ te esperando.
se você ousasse!


se você tivesse parado com seu calhambeque,
para trocar o pneu do meu cadillac.
se me convidasse para jantar
os peixes que pescou durante o dia.
se você tivesse topado o blind date.
se você se atrevesse!


se tivéssemos dividido uma maçã,
se eu fizesse parte do seu show,
se me amasse, me amassasse,
si hablaras español.


se me escrevesse uma canção,
se fosse mais determinado
ou se quem sabe eu te sorrisse!
ah, se eu te facilitasse o caminho!


se você fizesse graça!
uma surpresa na caixa de correio,
ou uma conchinha debaixo da porta.
se fantasiado de gorila pra chamar a minha atenção.
se tivesse dito que me ensinava,
quando eu recusei o convite
para dançar aquele tango.
ah, se você insistisse!


se tivesse me abraçado no táxi da volta,
e me lascasse um beijo para ver passar o calor ou o frio
que eu disse que estava sentindo.
se concordássemos em gênero, número e grau.
ah, se eu fosse valente!


se na ciclovia, bonito como é,
me pedisse uma disputa.
se trocasse de elevador só pra subir comigo,
se você me desse alguma dica!
se pedisse minha opinião pra ficar,
ou me dito pra não ir,
me dado carona no guarda-chuva,
ganhado no cassino e me pedido pra casar.
se eu soubesse como era fácil te agradar!

se tivesse jorrado palavras ao vento elétrico dos bits
ou puxado minha mão, menos tímido do que eu.
se tivesse me arrastado, eu me deixava levar,
como alguém em direção ao mar.

se você viesse com conversa mole, e eu te desse mole.
ah, se!
só teria meu beijo contido até te dizer que queria te beijar.
ou de nada valeria.
eu riria com você de tudo no dia seguinte,
no chão,
tomando vinho comprado no supermercado.





segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Folie à Deux



Head on the ground:
“Trabalho nos bastidores da vida”, era o que costumava dizer. a psiquiatria era o lugar de onde você explicava e enxergava o mundo.  dizia ouvir coisas que um não pagaria pra ver. desde criança queria ser útil, ter uma profissão que salvasse o mundo. você tinha talento para tratar com gente, empatia para escutar suas mazelas e ouvido apurado para notar as singularidades de quem fosse. era perceptivo, observador e sagaz para intervir. um sucesso de menino! e muito gostoso, muito.

Feet on the air:
Curava lá fora e desconcertava aqui dentro.

Where´s my mind?
Fora deste universo, não menos complexo, você pensava alto em alguém que gostasse de caminhar na chuva, assim como você, aqui em Paris, sua cidade natal, onde seus pés estão bem fincados há 30 e poucos anos. e essa é a parte da história onde eu entro, distraída, assoviando dó ré mi sol e sem querer saio do palco, ensopada de chuva, e no caminho perco um parafuso, e no descaminho dou na sua porta, que você imediatamente abre, fascinado pelo meu jeito, meu sotaque, minha audácia e pelas cartas que um dia eu pudesse te escrever. você também está gotejando, tiritando de frio, você diz: “acabo de chegar!” e conversa amenidades, como se não fôssemos íntimos. e somos? logo saberia, a convivência nos aproximaria. e assim, como sol lá si dó, me meto desconfiada nestes bastidores e uma vez lá dentro me transformo em fantoche manipulada à sua revelia. neste esconderijo atemporal se desenrola a nossa história, folie à deux, pano de fundo para que a nossa existência, farta de frases desconexas, delirium tremens e erotomania, se dê. que paradoxo, tanta loucura, mas é tão confortável aqui. não, doutor, não me receite psicotrópicos, estou perturbada, mas é normal, minha confusão sobre qual sinal pendurar naquela porta não é descabida: ‘don´t disturb’? ‘you´re welcome’? não se preocupe, você diz: "eu quero um a um com você", while I ask myself: "where´s my mind?" não tenho escolha, don´t stop. morro de paixão quando me enrosco contigo.


https://www.youtube.com/watch?v=GfcW_cPDCHo

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Identidade.


"Pode-se até começar a sentirse chez-soi, 'em casa', em qualquer lugar,
mas o preço que se paga é a aceitação de que em lugar algum
se vai estar total e plenamente em casa. (...)
As 'identidades' flutuam no ar."

Zygmunt Bauman
sociólogo nascido na Polônia e naturalizado britânico.

Tradução minha de um texto de Andrés Neuman*:
El país de la espera: la otra cara de los aeropuertos

Vó Rosa nasceu na Espanha. Cresceu durante a República e se exilou quando acabou a guerra. Na Argentina teve outra vida, outra família e muitos netos. Lá, Rosa perdeu suas raízes, ou ganhou novas, ou ambas coisas. Foi feliz e infeliz, conheceu democracias e ditaduras, fartura e miséria. A Argentina, em síntese, pareceu transformar-se em seu destino. Mas depois de ficar viúva, Rosa quis voltar à Espanha para encontrar sua irmã, que permanecera em seu país natal. A irmã espanhola a recebeu desejosa de inaugurar de novo o tempo. O reencontro trouxe emoções, surpresas e conversas durante todo o ano. Neste período, a família argentina de Rosa não deixou de telefonar pedindo seu regresso. Voltar como, se acabo de voltar?- pensava ela ao escutar a voz dos filhos do outro lado da linha, enquanto olhava para as rugas da irmã mais nova.

Com o passar dos meses, Vó Rosa começou a hesitar. Recuperara a irmã e os lugares da infância, mas sentia saudade dos outros parentes, suas outras ruas. Após numerosos telefonemas, Rosa acabou aceitando as passagens de avião que lhe deram. Arrumou novamente as malas e, uma tarde, se dirigiu ao aeroporto de Málaga para voar à Argentina. Na manhã seguinte, sua família ligou para a Espanha preocupada. Cadê a vovó? Seu avião havia pousado sem ela a bordo. Sua irmã não sabia de nada. Rosa não havia voltado nem telefonado.

Às pressas, sua irmã pegou um táxi ao aeroporto para perguntar por ela. Logo em seguida, a encontrou sentada em uma destas salas de espera, quietinha, olhando de forma ausente os painéis dos voos. Vendo mudar os lugares, os horários, as companhias. Estava assim o dia inteiro. Havia perdido o avião e os seguintes. Não tinha trocado de roupa. Parecia tranquila.

Quando Vó Rosa pousou finalmente em Buenos Aires, seus familiares atribuíram seu comportamento à senilidade que, por momentos, dava indícios nela. Eu prefiro pensar que Rosa teve um insuportável acesso de lucidez. Que passou 24 horas refletindo de frente para o painel dos destinos, meditando quem era e de que lado estava, no único lugar do mundo onde não se está em nenhuma parte: o aeroporto. Quero pensar que Rosa, antes de voltar para seus netos, averiguou para quê serviam as esperas, o estado de trânsito e os passarinhos que voavam no telhado.
* Andrés Neuman nasceu em 1977 em Buenos Aires onde passou sua infância. Hoje vive em Granada, sul da Espanha, em cuja universidade foi professor de Literatura hispano-americana. Recebeu vários prêmios e esteve mês pasado no FLIP , a Feira Literária de Paraty. Sou fã dele e acho lindíssimo este texto!! Parecido com este tema, há o filme de 2001,  "Herencia", da argentina Paula Hernández.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

amantes.


*um texto para subverter a ordem do dia,
dia dos namorados.*
gosto de me lembrar, eu sonolenta ouvia você se trocando para viajar. seu jeito afobado, catando as coisas pelo caminho, o cheiro do café. antes de sair você se abaixou e sussurrou no meu ouvido que me amava. foi a primeira vez que me disse isso. eu freqüentava a sua casa. era sempre jazz de fundo e manchas de vinho nos sofás. você punha o colchão no chão e o ventilador ficava em cima da gente. lembro da primeira vez que fui lá. depois de dançar a noite inteira você me chamou pra ver a árvore que enfeitava a sua varanda. fazia noite de lua cheia e um pouco de frio, você me emprestou um casaco e não deixou que eu o devolvesse quando fui embora. queria me ver outra vez. lembra do dia que a moça da faxina chegou antes que eu saísse do banho? você me ajudou a vestir dentro do banheiro. o chão estava alagado e você se agachou para subir a barra da minha calça... éramos felizes. lembra da primeira vez que você fez marshmellow? pra comer com os morangos e me lambuzar, junto com a champanhe. aquele dia comemorávamos seu aniversário. era estranho te dividir com outra pessoa. leviano? muita gente podia achar, mas aconteceu com a gente. e por você ser sempre tão presente, me completava. não havia rótulos, sei lá, estávamos juntos, era tudo. e o dia que você me deu uma calcinha vermelha em formato de flor? você me entregou dando risada dizendo que comprara “aquela cafonice” para ajudar alguém na faculdade. mesmo assim, eu adorei. imagina! nada que vinha de você era brega. como eu adorava passear de mãos dadas com você! e quando me pegava de carro pra ir comer uma torta de chocolate n´algum lugar, lembra? a gente ia ouvindo Roberto Carlos no ipod. e as baladas até de madrugada? foram tantas! lembro das suas atrapalhadas, seu jeito elétrico e apaixonado, da sua insistência pra ficar comigo. essa obsessão me lisonjeava. guardo o cheiro da sua casa, do perfume de flor que entrava de noite, quando você abria uma fresta da janela. tinha uma foto dela na mesa do escritório, mas não me incomodava, o seu amor a ofuscava. e que contraditório, se era você quem enlouquecia de ciúmes. e aquela noite que você ligou pra sua mãe pra contar que não ia mais se casar? estava apaixonado por outra pessoa, lhe disse. ela levou tanto susto! você só queria me testar. meu amor, já faz quanto tempo? são quantos anos? e ainda. te mando esta carta desde longe. espero que goste, sempre esperei. espero que goste de tudo. para sempre sua.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

a piece of David Lynch:




       por Colina Coralina,
             com contribuições e melhores intenções de Mario Teixeira*.
mais de meio-dia, quando pousa na cidade maravilhosa. independente e auto-suficiente que é, resolve imediatamente conhecer o Rio de Janeiro. mas chega no hotel e até abrir a mala e guardar cada peça de roupa em seu devido lugar, mergulhar forte naquela cama king size e testar o ar condicionado...
por quase o sol já se havia posto e lá estava ela de frente para o teleférico com duas mulheres friorentas à sua frente. usam uns casacões enquanto ela, minissaia. elas pegam o primeiro, riem muito porque não conseguem subir nele e aquela alegria bêbada causa-lhe preguiça, que frescura! mas na sua vez vê que o ‘trem’ é mesmo sem jeito de subir: balança que só, sô! senta-se desajeitada e sobe, sobe, sobe. faz frio, mas é tudo tão lindo, pura mata atlântica! observa um miquinho pular de árvore em árvore e sente medo e fantasia que uma cobra lhe caia na cabeça. o verde-escuro é úmido, é floresta fechada, frescor e silêncio lhe confortam. suspira! fim. salta num campinho de futebol de terra vermelha, gols feitos com pedaços toscos de madeira e meninos, que como os miquinhos, se divertem a valer. quer comê-las, as crianças (são fofas com seus sorrisos), ao mesmo tempo que sente medo e fantasia que uma cobra surja pelo chão. está no Complexo do Alemão, uma das favelas pacificadas da cidade. aqui tem UPP, é seguro, ponto turístico exótico pra este tipo de turista, gringo. caminha, já quase consegue enxergar a cobra ao seu lado - seria ali o paraíso com suas contradições? -, e dá na varanda de algum lugar. sentadas num murinho pessoas comem da panela de um fogão ao ar livre. ela parece invisível, ninguém lhe olha enquanto contempla a novidade - já estarão acostumados a ser como miquinhos para turistas - , menos um, um moço de pé entre os outros, um moço que lambe os dedos e tem um prato de plástico nas mãos. ela, sente medo e fantasia encenando aquela tela onde ele é o único espectador. o único que nota sua presença lhe causa horror. escurece, time to leave!
o teleférico da volta é distinto. o caminho também, é estreito e escuro, há só um pedaço de ‘cano’ onde se pode segurar com as duas mãos. dependura-se nesse poleiro invertido, sensação estranha... tem medo e fantasia de escorregar,  aperta forte. passa mil cremes nas mãos, vai escorregar! o chão é cheio de pedrinhas e terra vermelha, parece uma saída clandestina, feita às pressas. como se arrepende! é aquilo um túnel, as paredes de barro mole, avermelhado, quente.  sente o calor em sua pele. a serpente segue dolente: tem que encarar, minha filha! agarra-se e vai descendo suspensa como uma franga de frigorífico. seus pés encostam nas pedrinhas do chão enquanto desce, e dali vê pessoas rastejando. elas tentam subir, misturadas àquele barro bíblico de onde vieram, num sacrifício dantesco. onde estou? no inferno? chega logo, este inferno de sensações dura uns poucos segundos. também surge lá embaixo o moço que lhe olhava lá em cima. ele usa uma camisa torta, tatuagens desfocadas, é grande, pelancudo e grosseiro. aproxima-se sem cerimônia: ‘gostei de você, aê?’ – aponta suas mãos gigantes à medida que diz olhando sarcástico nos olhos dela que buscam debandar-se dali. não tem ninguém por perto, a serpente já foi, e não tem saída. histérica, não quer ver, tapa os olhos pra gritar e ouve um barulho, uma sirene? são oito da manhã e o despertador de súbito lhe acorda. é quando sai sem medo e com fantasia em busca do teleférico.


* Mario? que Mario?
in: http://lugarmarioteixeira.blogspot.com/

sexta-feira, 8 de abril de 2011

30 gramas de fetiche




No começo ficava vestido dentro de casa: camisa polo, meias, sapato bem lustrado. Uma cerimônia só! Depois começou a perguntar se podia ficar descalço. Hoje em dia nenhuma roupa usa e nem se preocupa em fechar as cortinas. Faz café, lê jornal, vê TV, anda falando ao telefone, come um caqui... Assim como veio ao mundo. Quem diria, hein, Manolo?

Mabel tinha uma teoria: todo narigudo é bonito, mas nem todo bonito é narigudo. E assim via o mundo. Ficava sem chão quando enxergava um narigudo na cantina no intervalo da faculdade. Faltava-lhe o ar quando no sinal avistava um narigudo no carro ao lado. E perdia o tino, ai!, quando um narigudo lhe olhava com luxúria.

Mabel e Manolo hoje dividem o mesmo teto.

O dia estava azul e branco quando se conheceram. Na primeira vez que Manolo veio buscar Mabel em casa, ela, longos cabelos soltos, o esperava na varanda que dava pra rua. Descia, entrava no carro, ele, nenhum fiozinho de cabelo fora do lugar, a camisa bem branca e esticada. Ela, um decotaço que ele não percebeu. Logo no jantar, ele disse: Você parecia a Rapunzel naquela sacada me esperando. Ela, decepcionadíssima, bem preferia ter escutado: Você estava uma gostooosa naquela varanda! E na hora do brinde com vinho branco ele diz: A você, minha princesa! Ela faz xix porque queria ouvir: Gata! Ele dirigindo na volta pra casa passa num buraco e Mabel pensa ranzinza: Ô roda-dura! E toma um susto, bom, porque ele pega na perna dela, mas joga tudo no ralo quando docemente pergunta-lhe, olhando lá no fundo dos seus olhos: Você está bem, princesa? Mabel, desiludida, bem gostaria que ele esbravejasse: Caralhooo!! Essa prefeitura de merda que não conserta a porra desses buracos!!!

Manolo tinha uma forma suave de falar, um jeito lento de se mover, uma maneira muito cuidadosa de mexer nas coisas. Se fosse de vidro não quebraria nunca. Mas tinha o nariz grande, uns 30 gramas de nariz. Mabel, acima de tudo, só enxergava aquele narigão que botava qualquer titubeio no chinelo. Manolo era narigudo e logo, bonito de morrer!

Numa festa a lua estava cheia. Mabel comentou, que linda a lua. Manolo disse: É nossa! Foco, Mabel, foco no nariz! Manolo era menino criado por vó, e por isso, ingênuo e puro - consolava-se a pobre. Era ver pra crer!

Despedindo-se no carro ela ansiou por uns amassos, queria ouvi-lo dizer: Vou te sequestrar! Mas ele lhe deu um beijo insosso na boca e perguntou: Posso arrancar um pedaço, pôr no formol e deixar ao lado da minha cama? E pra piorar deu-lhe boa noite com um beijo na mão. Mabel subiu as escadas enfurecida e antes que fosse preciso interná-la em camisa de força, prometeu que aquela seria a última vez, a última, entendeu?

Mas quando fechou a porta do quarto e viu dependurada a caricatura do namorado feita naquele evento de quadrinhos, o narigão sobressalente, teve sonhos eróticos com Manolo e esqueceu de tudo.

Numa reunião de amigos, cada casal disse qual parte do corpo de seu companheiro gostava mais. Manolo disse: As mãos de Mabel. Ela não aguentou: Poxa, eu ralo malhando a coxa na academia! Neste dia ele se animou, pegou na perna dela, ela gostou, queria que ele agora pegasse na sua bunda, mas ele fez uma pausa pra dizer: Parecemos duas crianças nos descobrindo. Fon fon!

Era impossível, basta! - ela disse. Continuar com ele era como “querer transformar em azul o mar vermelho” (frase bonita do Amos Oz)! Então no rádio do carro começou um reggae e Manolo cantarolou: I wanna love you and treat you right I wanna love you every day and every night. Apontou o nariz pra ela e os dois cantaram juntos o refrão: is this love is this love is this love that i´m feeling?



terça-feira, 29 de março de 2011

Marietta.



sempre que estou num andar alto e escuto lá de baixo o barulho abafado dos carros e dos ônibus circulando, por mais estranho que isso possa soar, sinto uma sensação deliciosa! durante a minha infância e pré-adolescência, a minha avó Marietta morou no 7º andar de um edifício no centro de BH. ali na rua da Bahia com Tupinambás eu dormia alguns finais de semana numa cama que de tão cômoda parecia me abraçar. a cama dela, naquele quarto de chão acarpetado que tinha o cheiro de seus perfumes e cremes. eu acordava e escutava o barulho vindo de longe da cidade acontecendo, olhava pro lado e minha avó não estava mais lá. então vinha o eco da cozinha, um tinir de copos e talheres.

vovó nunca soube gritar, chama as pessoas devagarinho. é a mulher mais delicada que já conheci. quando tem alguém dormindo, fecha a porta de mansinho, sai pé ante pé. o sono na casa dela é de bela adormecida.

eu me levantava de pijama azul estampado com nuvens rosas e a encontrava pomposa na cozinha retirando do engradado as garrafinhas de guaraná antártica pro lanche. de almoço, a especialidade dela, strogonoff de frango e pé-de-moleque de sobremesa. de tarde, a melhor parte: seu biscoito de polvilho.

eu ficava brincando com minhas panelinhas de plástico ouvindo Turma da Xuxa enquanto ela conferia, sentada na cama, os extratos das poupanças da Caixa. na TV, Sílvio Santos mandava abrir a porta da esperança.

a vida toda vaidosa. deu cedo pras filhas um batom vermelho para que jamais sorrissem amarelo. as meninas impecáveis, quando iam trabalhar alisavam os cabelos com o ferro de passar roupa e deixavam na véspera os vestidos dormirem embaixo do colchão. saíam sem um amassado diante do fã clube de moços que queriam se casar. o filho homem também era um brotinho cobiçado, como diziam naquela época.

os armários repletos de roupas, maquiagens, laquê pro cabelo. sempre muito, muito elegante. a vida inteira ouvindo elogios por onde passava, a mais charmosa do trabalho, do bairro. até a médica geriatra se encanta por ela, elogia sua feminilidade, seu capricho. avó extremamente carinhosa e acolhedora, mulher valente, íntegra, apaixonada, dinâmica, criou os quatro filhos sozinha devido a um marido ausente, trabalhou fora numa época em que isso não era fato corrente. jogava volley e adorava tango.  por causa disso ainda conserva um belo par de pernas estonteantes.

estou aqui de frente pra Liz Taylor que é a capa de revista esta semana. e penso que minha avó, se a Hollywood pertencesse, estamparia plena qualquer revista. ela, a diva Marietta!



sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Princesa


Soledad estava sempre sozinha. Era famosa na locadora, lhe tratavam pelo nome. Ali batia ponto nos finais de semana, saía com 3 filmes debaixo do braço, 2/3 deles europeus em preto e branco. Na praia era sempre só ela, seu jornal, sua cadeira e o guarda-sol. Nenhum surfista vinha pedir ajuda para subir o zíper daquele macacão de surf. ‘Bem que podia!’ – sonhava. Os que vinham pedir para olhar as havaianas enquanto davam um mergulho eram todos senhores bem enrugadinhos. Desgostosa da vida, ia da praia direto a comprar um frango assado. Só levava o celular frenético consigo para ver as horas. Quase sempre não estava para ninguém! O homem que fatiava o frango já sabia que só precisava cortá-lo ao meio e não em partes. Soledad não tinha paciência para esperar. Era magra, mas estava sempre faminta. Uma amiga sugeriu que adotasse um cãozinho: ‘Vai te fazer companhia’. Que nada!, Soledad era feliz assim, se bastava fumando seu cigarro. Independente, sentia-se em paz. Toda semana o mesmo enredo: ela e um saco de pipoca doce numa poltrona de cinema, ela sozinha no metrô, ela sozinha no shopping, sozinha no self-service, livre e plena. Soledad não é feia nem burra, não é medrosa nem pessimista, hipocondríaca ou desleixada. Pelo contrário, sua autoestima é do tamanho de seu espelho. Você pode achá-la antipática, arrogante, egoísta. Esquizofrênica talvez? Engana-se: a Soledad é uma conchinha, interveio sua psicanalista uma vez: ‘Você não se aproxima das pessoas porque não quer que elas te conheçam.’ Tiro certeiro na sua alma, nunca mais voltou à terapia. Não queria mudar. Era que nem burro quando empaca.
Soledad curtia sua solidão, seus filmes prediletos eram recheados de personagens solitários, mas às vezes batia uma vontade de ter um namorado! Nestes dias, fogosa da vida, ligava para as amigas e ia para El Born prestando atenção em todos os rostos. No trabalho não tinha ninguém que prestasse e seu espanhol carecia de brilho para cantar alguém virtualmente num desses chats. O jeito era se jogar no ringue e sair sorrindo a torto e a direito para os mocinhos que lhe chamavam a atenção. Era só querer que voltava acompanhada para a casa.
Hoje ela faz um mês de namoro e Javier vai buscá-la para um happy hour de celebração. É inédito alguém ir pegá-la no trabalho. Soledad passa o dia eufórica, ansiosa pela concretização de um sonho tão antigo. Lembra-se com asco e dor do tempo que era menina de programa para pagar a faculdade, quando fantasiava o dia em que um homem de bem a buscasse na porta do serviço. Fato improvável naquela época, já que na rua não tem porta e muito menos interfone. É chegada sua vez.
inspirado na música 'Me Llaman Calle', de Mano Chao,
 trilha sonora do filme 'Princesas', de Fernando León de Aranoa:

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Gotham city





                                           


Copacabana é o bairro mais populoso do Rio de Janeiro, abocanhando cerca de 150 mil habitantes. abriga três estações de metrô, três favelas, um dos hotéis mais luxuosos da América Latina, de sinagogas a sex-shops, o forte e uma praia em formato de meia-lua: a princesinha do mar, assim chamada, é dona do calçadão mais charmoso da orla pelos desenhos de Burle Max. Drummond não sai de lá.


é a um palmo desta praia donde vivo yonum destes 20 aptos por andar desta caótica e animada Gotham City, caracterizada por ter mais moradores do que pode comportar - ampla e confortavelmente falando. há tempos, este renomado pedaço de terra espremido entre o mar e a montanha, encheu-se de prédios altos, de aptos colados uns aos outros e tornou-se um microcosmo brasileiro, unindo diferentes classes sociais e turistas em todas as temporadas. por isso, venho falar dos meus vizinhos, que mesmo não se tratando de um prédio “treme-treme”, eles são bem peculiares!


a vizinha do 1019 viaja com o namorado europeu e deixa a gata pra eu cuidar. traz como agradecimento um ímã de geladeira que diz: lembrei de você em Arraial do Cabo. o souvenir não combina nada com a minha cozinha, mas mesmo assim o tasco na geladeira! o estilo de vida dela tampouco tem a ver com o meu. no dia dos namorados, penso na Lapa e comento que hoje é um dia bom para sair: para uma solteira como eu, imagino que todos os mocinhos avulsos na rua hoje sejam solteiros. ela concorda e me sugere uma volta no shopping! shopping? ni hablar! quem vem semanalmente limpar o apto do vizinho do 1021 é a ex-mulher. oi? ainda este tal querido vizinho me levou para aulas de samba, soltinho e gafieira. Jaime Arôcha elogiou meu batom e o meu vestido, me fez sentir una chica Almodóvar! meu gato Bahia quer passear e começa a dar voadoras na porta e, enquanto saio com o lixo, ele corre para dentro de uns dos quatro aptos que a bruxa do 608 aluga pra temporada. ela odeia gatos, reclama e pede bufando pra tirá-lo já de lá, 'não quero pulgas em minha casa'. eu digo que meu gato não tem pulgas. ela quer me xingar, ela diz: 'mas você é tão bonitinha, não queria fazer isso, mas se continuar assim...' já que moro de aluguel, tenho que engolir. na volta do xerelete do Adega Pérola, cruzo com a vizinha do 722. ela pede fogo e a voz sai das entranhas, parece que ela quer chupar meu sangue. medo! a hipocondríaca que acaba de mudar-se para o 1021 passa os dias jogando Baygon na entrada de sua porta e reclamando de alguma dor, um leque de sintomas que variam a cada dia. o vizinho do 512 mente, diz que tem 19, mas tem 16. pede abrigo quando briga com os pais e ajuda para escrever cartas para a namorada. ele tenta, eu sempre invento uma desculpa. ganho um prato de macarrão da vizinha do 917 depois que a deixo cozinhar em meu fogão - cortaram seu gás. ela compartilha apto de 40 m2, iguais a todos do prédio, com o namorado, a mãe e o irmão dele, os dois filhos dela e ainda Kate e Tubo, a cadela dele e o gato dela. vida bandida!




são 12 andares, 24 aptos conjugados por andar, mais de 500 moradores, 10 porteiros. um deles um dia me disse que tinha um presente pra me dar. ganhei uma mexirica! e depois, me vendo ir viajar, gritou da portaria: 'volta logo'! fala sério! minha gata se esconde debaixo da máquina de lavar quando a criança do 807 toca a campainha. houve um tempo que eu a emprestava, a  gata preta, coitadinha, para ele e a menininha do 217 brincarem. deixo umas roupas para reparos e descubro que a costureira é minha vizinha do 204. ela me pede para ir a sua casa ajudá-la a tirar uma passagem online e acabo horas no MSN com seu pretendente virtual, Mustafá, um turco que ela achava ser espanhol. minha hóspede flerta com o vizinho do 406. ele é gay, comento, mas adora provocar, por isso ela segue tendo fantasias com ele. belo dia chego atrasada no trabalho porque tenho que ajudar a vizinha do 703 que bate à minha porta chorando por não conseguir pôr os curativos pós-cirurgícos na Cocada, sua gatinha recém-castrada. ela também divide apto com Eros, seu cão obeso, e chega outro dia à minha porta com um pedaço de bolo como agradecimento, justo na hora que eu penava tentando fechar um zíper nas costas do vestido. Deus dá em dobro mesmo!




vivo nos fundos de Copacabana. não tenho vista para o mar, mas posso usufruir de um útil varal na minha janela. pago a língua cada vez que penduro qualquer coisa lá. numa dessas, deixo cair uma toalha que pousa no ar condicionado do vizinho do 314. deixo uma notinha debaixo da porta pedindo por gentileza que deixe a dita cuja na portaria. quando volto encontro um bilhete com seu nome completo, e-mail, telefone em Salvador, endereço e Orkut: ‘não encontrei a toalha, mas vamos tomar um café ou quem sabe, um avião?’ oh! quanto mais eu rezo... Bahia corre pro 11° andar, escuto seu miado, subo e o encontro mordendo fios na obra elétrica, me lembro do carneiro eletrecutado da infância, mas não consigo tirá-lo de dentro daquele puxadinho. desmaiaria se fosse mais boba, churrasquinho do meu gato, mas desço atrás de um atum em lata para atraí-lo. em vão, ele é salvo pelo síndico que me traz o bichano todo empoeirado no colo, meu herói!! a babá do filho do taxista do 301 comenta preocupada do dever de casa do menino: ‘fala de Xangô, mas Xangô é coisa de demônio! e também tem textos sobre trovão. trovão é Deus, óxente!’ e lamenta: ‘não estou entendendo este colégio!’ axé, odara!




neste momento lambo os dedos de manjubinhas picantes em conserva que a vizinha do 917 me deu de natal. os gatos também ganharam um pote de manjubinhas fritas. e ouço as músicas da bandinha de hip hop daquele meu vizinho adolescente. morar aqui é assim, cuspo no prato que como, mas Copacabana, eu hei de amar. na real, oscilar entre amo e odeio, varia com o humor do momento. se mau, vejo tudo bizarro e feio. se bom, é tudo estranho mesmo, só que curioso e divertido.




viva o olhar antropológico! viva a subjetividade humana e a diferença! afinal, que sem graça seria se todos fôssemos iguais.